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Desvendada a origem de fungo responsável pelo declínio de anfíbios em todo o mundo.

SERRA DA ESTRELA / 10 MAIO 2018

Um novo estudo hoje publicado na revista Science revela que a mais recente linhagem do fungo quitrídio-dos-anfíbios, que tem causado o declínio e empurrado para a extinção várias espécies de anfíbios por todo o mundo nas últimas décadas, teve origem no Sudeste Asiático no início do século XX. Esta linhagem mais agressiva do fungo tinha já sido detetada na Serra da Estrela e noutros pontos da Península Ibérica.

Esta descoberta coloca numa perspectiva global uma parte do trabalho que o investigador Gonçalo M. Rosa, co-autor deste artigo na Science (que já tem colaborado na revista Zimbro) tem vindo a desenvolver através do seu estudo de monitorização de anfíbios na Serra da Estrela nos últimos anos.

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Um novo estudo hoje publicado na revista Science revela que a mais recente linhagem do fungo quitrídio-dos-anfíbios, que tem causado o declínio e empurrado para a extinção várias espécies de anfíbios por todo o mundo nas últimas décadas, teve origem no Sudeste Asiático no início do século XX. Esta linhagem mais agressiva do fungo tinha já sido detetada na Serra da Estrela e noutros pontos da Península Ibérica.

Desde a década de 1990 que se conhece a ligação entre o quitrídio (Batrachochytriumdendrobatidis), um fungo microscópico, e o declínio de várias espécies de anfíbios por todo o mundo. O fungo infecta a pele de rãs, sapos e outros anfíbios causando uma doença chamada quitridiomicose. Em espécies mais susceptíveis este fungo tem sido responsável por inúmeros episódios de mortalidade em massa. No entanto, não se conhecia ainda onde e quando teria tido origem este fungo e a sua linhagem mais agressiva.

Os resultados do estudo agora publicado, que envolveu uma equipa internacional de mais de 50 investigadores de 38 instituições, revelam que esta linhagem terá emergido no Sudeste Asiático, em particular na península da Coreia. “Esta é uma questão que tem estado no centro de acérrimos debates ao longo das últimas duas décadas, com sugestões em cima da mesa tão diversas como África do Sul, América do Norte e Sul ou mesmo Japão”, explica Gonçalo M. Rosa, investigador do cE3c - Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa) e do Instituto de Zoologia de Londres (Reino Unido).

Os investigadores sequenciaram o genoma de amostras deste fungo recolhidas em todo o mundo e combinaram estes dados com os resultados de outros estudos já publicados, num total de 234 amostras. As análises genéticas revelaram a existência de quatro principais linhagens deste fungo, três das quais distribuídas a nível global – e uma delas apenas existente na península da Coreia, em sapos nativos da região. Os resultados indicam também que – ao contrário de estimativas anteriores – esta linhagem mais agressiva terá divergido do seu ancestral comum mais recente no início do século XX.

“Em vez de remontar a milhares de anos, como se pensava anteriormente, estimamos agora com maior robustez que a emergência tenha ocorrido entre 50 a 120 anos atrás” acrescenta Matthew Fisher, professor no Imperial College London (Reino Unido). Esta data coincide com uma intensificação de atividades humanas naquela parte do globo com um aumento do comércio intercontinental que terá contribuído para a rápida expansão do fungo por todo o mundo.
 
Em Portugal este fungo foi associado pela primeira vez a um episódio de mortalidade em 2009 na Serra da Estrela, onde desde então Gonçalo M. Rosa estabeleceu um estudo de monitorização. “As populações de sapo-parteiro foram as mais afetadas, principalmente nas zonas elevadas da Serra da Estrela onde, em alguns charcos e lagoas, os animais deixaram simplesmente de ser vistos ou ouvidos”, acrescenta o investigador.
 
Os resultados deste estudo, coordenado pelo Imperial College London, indicam que o movimento de anfíbios causado pela atividade humana – por exemplo através do comércio de animais de estimação ou com fins gastronómicos – terá tido uma contribuição significativa para a disseminação desta estirpe a nível global. Os autores recomendam um maior controle sobre o comércio de anfíbios oriundos da Ásia bem como mais atenção à higiene e medidas de biossegurança no transporte dos mesmos, devido ao elevado risco de exportação de estirpes anteriormente desconhecidas para fora desta região.

Referência do artigo:
O’Hanlon S, Rieux A, Farrer RA, Rosa GM, et al. (2018). Recent Asian origin of chytrid fungi causing global amphibian declines. Science.
https://doi.org/10.1126/science.aar1965

Amostragem de quitrídio em tritão-marmoreado (Triturus marmoratus).

© Gonçalo M. Rosa

Associação ambientalista alerta para erosão dos solos na Serra da Estrela

SERRA DA ESTRELA / 19 OUT 2017

A Associação Cultural Amigos da Serra da Estrela (ASE), com sede em Manteigas, alertou hoje para a contribuição que os incêndios podem ter para a erosão dos solos e para o armazenamento de água naquela montanha.

“A Serra da Estrela, principal abastecedor de água ao país, tem sido muito fustigada pelos incêndios e essa factualidade está a causar a erosão dos solos que se tem vindo a agravar pela manifesta ausência de vegetação nas cotas mais elevadas da serra e a causar danos na capacidade de armazenamento de água no subsolo, situação à qual não está a ser dada a devida atenção”, alerta a ASE em nota hoje enviada à agência Lusa.

A posição da associação ambientalista surge no seguimento dos incêndios rurais que se registaram na zona da Serra da Estrela, concelhos de Seia e de Gouveia, no domingo e na segunda-feira.

Para a ASE, o momento que o país está a viver “não deve servir para a chicana política nem para análises de circunstância”, pelo respeito que merecem os cidadãos que perderam as suas vidas, bens e “todos os que ainda nem sequer recuperaram do cansaço e das feridas que os terão marcado para a vida”.

Segundo a coletividade presidida por José Maria Saraiva, “no fundo, o que urge fazer é procurar não perder mais tempo, pensar mais no interesse do país, porque não há folga para mais erros como os que foram cometidos ao longo destas quatro décadas”.

“A ausência de investimentos para a melhoria das condições dos nossos agricultores que os estimulasse a manter as suas explorações agropastoris, valorizando o seu contributo para o equilíbrio dos ecossistemas, foi contrariada por fortes impulsos para a promoção de povoamentos de eucaliptos que estampam a paisagem de norte a sul do país”, sublinha.

Na análise da tragédia causada pelos fogos, a ASE aponta que, “além das variáveis associadas às condições atmosféricas, os eucaliptais, independentemente de serem bem ou mal geridos, são um dos fatores que mais influenciam a dinâmica dos fogos”.

“Apesar de todos os problemas que a Serra da Estrela enfrenta, inclusive da alteração estrutural na orgânica do combate aos fogos e que a experiência que uma centena de anos já demonstrara que funcionava bem, temos a sorte de não existir um único povoamento de eucaliptos digno de registo”, aponta.

Para isso contribuiu a associação quando, na década de 1980, “foi capaz de sensibilizar a Portucel para não povoar com eucaliptos a encosta de Famalicão da Serra [no concelho da Guarda], como estava previsto fazê-lo”.

As centenas de incêndios que deflagraram no domingo, o pior dia de fogos do ano segundo as autoridades, provocaram 42 mortos e cerca de 70 feridos, mais de uma dezena dos quais graves.

Os fogos obrigaram a evacuar localidades, a realojar as populações e a cortar o trânsito em dezenas de estradas, sobretudo nas regiões Norte e Centro.

O Governo decretou três dias de luto nacional, entre terça-feira e hoje.

Esta é a segunda situação mais grave de incêndios com mortos este ano, depois de Pedrógão Grande, em junho, em que um fogo alastrou a outros municípios e provocou, segundo a contabilização oficial, 64 vítimas mortais e mais de 250 feridos. Registou-se ainda a morte de uma mulher que foi atropelada quando fugia deste fogo.

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