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Sanabria e a Serra da Estrela: protecção, conservação e desenvolvimento PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Terça, 27 Abril 2010 16:27

Uma análise comparativa*

Situado a escassos quilómetros da fronteira portuguesa, a Norte de Trás-os-Montes, o Parque Natural do Lago de Sanabria oferece-nos uma realidade bem diferente da que estamos habituados nas áreas protegidas do nosso país.


Comparável em muitos aspectos com a Serra da Estrela, tais como a sua natureza geológica e geomorfológica, clima, altitude ou vegetação potencial dominante, desde há muito que as duas serras seguiram percursos diferentes.

A paisagem abaixo dos 1.500m é dominada por bosques de Carvalho-negral (Quercus pyrenaica). Maioritariamente constituídos por árvores jovens, pontuados por carvalhos centenários, estes bosques bem conservados traduzem a relação das populações locais com a floresta autóctone: a floresta é o seu bem mais precioso; de onde retiram o seu sustento, que garante a base de todo o sistema agro-silvo-pastoril de que dependem, e que interessa preservar também por ser um dos principais atractivos turísticos da região (in Folheto de Divulgação do Parque Natural do Lago de Sanabria). É a gestão consciente e sustentável do património natural e cultural que por aqui tem permitido o equilíbrio entre o Homem e a Natureza e o bem-estar das comunidades locais.

Não se avistam pinheiros, acácias ou eucaliptos. A produção em monocultura de pinheiro ou eucalipto e a ocupação exponencial do território por acácias é em Portugal uma das principais causas para a perda de biodiversidade e degradação das nossas áreas protegidas, facilitando ainda a ocorrência e recorrência de incêndios florestais. São os Carvalhos, o Azevinho e os Teixos que, de entre as 1500 espécies de plantas que se podem encontrar no Parque Natural do Lago de Sanabria, trazem os visitantes a percorrer os muitos trilhos bem sinalizados, e que nos permitem adentrar pela serra desde os “pueblos” típicos e acolhedores, sejamos montanhistas experientes ou curiosos das belezas naturais.

Para chegar à Cascata de Sotillo, onde estivemos com o grupo da ASE, não há estradas alcatroadas, não há confusão de estacionamento, não há lixo. Apenas a beleza pristina e original de um monumento natural, tal como sempre foi. São vários os quilómetros por trilhos antigos e bem conservados que nos conduzem até lá desde Sotillo de Sanabria, o “pueblo” mais próximo, e são muitos os visitantes anónimos com que nos cruzamos e que nos saúdam com um “hola, buenas!” que nos faz sentir a cumplicidade e respeito pelo próximo, lugar-comum para quem já está habituado a estas lides da montanha.
Para quem conhece o Poço do Inferno, na nossa Serra da Estrela, torna-se inevitável a comparação. Mas por cá, o alcatrão que lhe democratizou o acesso, para além de lhe desvirtuar a beleza da inacessibilidade, tornou-se numa ferida aberta por onde chega o lixo deixado por quem nunca aprendeu a respeitar a Serra.

Em Sanabria, como na nossa Serra da Estrela, a neve não é mais que a cereja em cima do bolo, mas por cá continua-se a querer vender apenas a cereja e ignorar o resto do bolo. Apesar da neve em maior quantidade, melhor qualidade e durante maior período de tempo, não há estância de ski, apenas trilhos sinalizados para ski de travessia, sempre que as condições de neve o permitam. Sem assim implicar estradas em altitude (e consequente necessidade de manutenção), estruturas complexas e aglomerações excessivas de visitantes em zonas ambientalmente sensíveis.
A aposta num turismo de qualidade e diversificado, centrado nos valores naturais e não sazonal, resulta num verdadeiro estímulo à conservação da natureza e biodiversidade num ciclo virtuoso de procura e oferta entre visitantes e agentes locais ambientalmente conscientes, com óbvios benefícios ambientais e económicos.

No Parque Natural da Serra da Estrela, desde há muito que o desordenamento e a falta de uma estratégia de desenvolvimento consentânea com a realidade de uma região de montanha nos tem conduzido a uma situação cada vez mais insustentável de degradação ambiental, patrimonial e económica.

Do carvalhal autóctone que outrora terá dominado a nossa Serra, entre os 600 e os 1600m de altitude, praticamente apenas restam as memórias. Desde a sua sobre-exploração à substituição por monoculturas florestais de crescimento rápido, muitas foram as causas para o seu declínio. O Teixo, árvore sagrada venerada pelos celtas e referência na nossa mitologia, tem sido gradualmente conduzido a um estado de pré-extinção, principalmente pelos fogos florestais e pela eliminação selectiva pelos pastores devido à sua toxicidade para o gado, sem que uma estratégia concertada algo tenha feito para garantir a sua conservação.
Essa eliminação/substituição do coberto vegetal autóctone, basilar para o equilíbrio do ecossistema, terá sido determinante para os consequentes processos de degradação que se seguiram: incêndios florestais excessivamente recorrentes; erosão e perda de solo acelerada; diminuição da capacidade de resiliência do ecossistema; alterações climáticas locais; surgimento e expansão de vegetação exótica infestante; perda irreversível de biodiversidade.

Aos problemas de conservação e ordenamento do território soma-se a incompreensível lógica de promoção da região e dinamização da actividade turística: impõem-se severas restrições à circulação pedestre e à prática de actividades de montanhismo, de menor impacte e em maior harmonia com a natureza, enquanto que se facilita o fluxo desordenado e massificado de visitantes em viatura própria através do aumento e alargamento de vias rodoviárias, com consequências ao nível de dispersão da poluição e crescente dificuldade de gestão e manutenção; o recurso a uma concessão, em regime de exclusividade, da exploração turística e desportiva a um consórcio privado (desde 1971 e durante 60 anos e a partir de 1986!), em detrimento do mercado livre onde os agentes locais pudessem tomar parte, prejudica o empreendedorismo e a diversidade da oferta de produtos e serviços, constituindo assim mais um entrave ao desenvolvimento da região; a já referida aposta excessiva no produto “neve”, cuja sazonalidade e variabilidade têm implicações sociais, ao mesmo tempo que se despreza o potencial da beleza natural da Serra durante o resto do ano; projectos de questionável interesse público e desenquadrados da realidade de uma região de montanha que se vão sucedendo, tais como as pseudo “aldeias de montanha” (aldeamentos turísticos) ou a intenção de construção de um casino em plena área protegida; o absurdo da existência de um centro comercial no ponto mais alto de Portugal Continental, classificado como Área de protecção parcial do tipo I, a figura de protecção legal mais estrita do Plano de Ordenamento do PNSE, “onde predominam sistemas e valores naturais de interesse excepcional (…) e que apresentam no seu conjunto um carácter de elevada sensibilidade ecológica” (Regulamento do POPNSE, pela Resolução do Conselho de Ministros nº83/2009); crónica falta de meios e limitada capacidade de actuação do ICNB, agravada por erros de gestão e uma legislação ambiental desenquadrada.

Em consequência desta realidade todos ficamos a perder mas, indubitavelmente, o preço mais alto é pago pelas comunidades locais. Poucos são os que compreendem a importância de proteger a Serra pois, aparentemente, são mais os prejuízos que os benefícios de viver numa área protegida. Apenas sentem que lhes foi retirado o direito de usufruto do que sempre lhes pertenceu.
A exclusividade da exploração do turismo e a sua sazonalidade, a dificuldade em obter autorização para as actividades tradicionais e para novos investimentos contribuem diariamente para a precariedade laboral, o desemprego, o êxodo rural e a gradual perda de identidade cultural da região, agravando a já complexa situação da interioridade.

A conservação da natureza e biodiversidade não se esgota nas “plantinhas” ou nos “bichinhos”, como tantas vezes é mal compreendida. É necessário entender que todos nós também somos parte do ecossistema e dele dependemos para o nosso bem-estar e sobrevivência. Em Sanabria, na Serra da Estrela e por todo o mundo em nosso redor.
Interessa restaurar o equilíbrio há muito perdido por cá, entre o Homem e a Natureza. Que estes exemplos de sucesso vindos do país vizinho sirvam para repensar a nossa estratégia de desenvolvimento, pois de Espanha não vêm apenas “maus ventos”.
Porque protecção, conservação e desenvolvimento não podem ser encarados separadamente. Pela nossa Serra, por todos nós.


* Por Rui Ribeiro, Engenheiro Biofísico a realizar estágio profissional com apoio do IEFP na Associação Cultural dos Amigos da Serra da Estrela
 

 
 
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