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Sinais dos Tempos

O pior que nos pode acontecer relativamente ao futuro é ficarmos presos ao passado e não fazermos nada para além do “passeio” doentio pelas redes sociais.

Ano após ano, o tempo revela-se mesmo à nossa porta, nas alterações climáticas que não precisam de grandes conhecimentos para que não nos apercebamos do fenómeno e o ignoremos.

Lembram-se, alguns dos leitores, da única pista de esqui no pequeno vale dos Piornos onde foi montado um curto telesqui. A falta de neve a esta cota originou um investimento muito mais avultado nas proximidades da Torre onde, para a presente época, foram anunciados pelos responsáveis da estância de esqui um conjunto de melhorias, que terão tido um custo global a rondar os 700 mil euros.

Em declarações à “agência Lusa o director-geral da estância, Carlos Varandas” apontava, “para queda de neve na quinta-feira, dia 03 de Dezembro, mas mesmo que isso não aconteça a estância pretende assegurar a abertura das pistas através da produção de neve de cultura, o que poderá fazer desde que haja frio”.

E para que não restem dúvidas, as garantias de Carlos Varandas prosseguem: “Se não houver neve, iremos produzi-la para podermos abrir no mínimo três a quatro pistas, mas as previsões apontam para um pequeno nevão a partir de quinta-feira e, se assim for, poderemos até abrir mais pistas”.

Poderíamos continuar a referir as previsões e certezas do director da estância de esqui e até a dar alento aos anseios que vamos observando nos apaixonados pelo esqui! Mas uma coisa são os desejos, outra é a realidade. E esta diz-nos que a abertura oficial da
estância de esqui da Serra da Estrela foi anunciada publicamente para o dia 5 de Dezembro do ano passado, mas decorridos 67 dias sobre a data prometida as pistas não tiveram um único dia esquiável!

Não sinto satisfação pelas falhas de previsão de Carlos Varandas, bem pelo contrário: se há pessoas que gostariam de ver a Serra coberta de neve durante muitos meses do ano eu sou uma delas!

SENINÁRIO BEIRA SERRA

 

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Seminário “Beira Serra – 20 anos DE(S)ENVOLVIMENTO”

No dia 20 de Novembro, a Beira Serra – Associação de Desenvolvimento – organizou, no âmbito do seu vigésimo aniversário, um seminário denominado Beira Serra, 20 anos DE(S)ENVOLVIMENTO que decorreu na Universidade da Beira Interior.

O seminário pretendia dar conta e partilhar com a comunidade os projectos realizados e os resultados alcançados, assim como delinear em conjunto os caminhos a traçar e as respectivas formas de intervenção, perante as novas realidades e necessidades.

Defendendo que o desenvolvimento só pode ser entendido como um processo que implica e exige o envolvimento da comunidade, foi dada a palavra a autarcas, parceiros locais (Segurança Social, IEFP, CPCJ, Juntas de Freguesias, Associações Recreativas e Culturais, Sindicatos, Redes de voluntariado, Universidade e Escolas) associados e destinatários dos projetos, que, a par de prestigiados especialistas em temas julgados fundamentais para a sustentabilidade e o desenvolvimento, tiveram assim oportunidade de se pronunciar e debater o que foi feito e, sobretudo, o muito que é necessário fazer.

Após a sessão de abertura, onde marcaram presença o Reitor da UBI, os Presidentes das Câmaras Municipais da Covilhã e do Fundão, o Presidente da Mesa da Assembleia Geral e os Presidentes das Direcções (anteriores e actual) e se divulgou a nova imagem da Beira Serra, decorreram em paralelo os trabalhos de três secções, orientadas para os temas “Desenvolver a Participação e a Cidadania”, “Desenvolver o Interior” e “Desenvolver a Função Social do Estado”.

Desenvolver a Participação e a Cidadania

Nesta secção, moderada por Luís Garra e com a participação de Luís Filipe Madeira, Alcino Couto, Elisa Pinheiro, Jorge Fael e Pedro Nuno Leitão, foi abordada a temática do funcionamento do sistema democrático e a participação do cidadão na vida colectiva. A participação e a cidadania são conquistas democráticas, contudo, no quadro de crise económica atual, em que a austeridade parece ser a palavra de ordem, é notório o afastamento e alheamento do cidadão dos mecanismos de participação. Foi consensual a constatação que a necessidade de sobreviver trava os processos de participação cívica e cidadã e retira a confiança depositada nos órgãos de soberania: governo, parlamento e justiça. A importância de educar para o exercício da cidadania consagrado na Constituição da Republica Portuguesa, a valorização dos recursos e potencialidades locais, a preservação do património natural endógeno e das tradições culturais singulares, foram assim alguns dos caminhos apontados para dar voz a um território com identidade própria.

Desenvolver o Interior

Secção moderada por António Fernandes de Matos com a participação de Pires Manso, João Carvalho, Mesquita Milheiro, Jorge Reis Silva e Pedro Almeida. As assimetrias que caracterizam o território português, assim como os recursos naturais e potencialidades que poderão contribuir para o desenvolvimento do interior e da Cova da Beira foram os principais pontos abordados e debatidos nesta secção. A preferência pelo investimento estrangeiro em detrimento do nacional, o esvaziamento de quadros médios especializados, as parcas vias de comunicação e transportes, nomeadamente a inexistência de ligação Covilhã – Coimbra, a dificuldade do acesso ao crédito bonificado no sector agrícola, foram alguns dos constrangimentos apontados e que contribuem para acentuar as assimetrias regionais. Por outro lado, foram referidos recursos e potencialidades únicas e singulares que urge apoiar em prol do desenvolvimento do interior: a exploração de tungsténio e lítio, as condições excepcionais da Cova da Beira em termos de produção e exploração de energias renováveis, produtos locais e turismo rural, entre outros.

Desenvolver a Função Social do Estado.

Esta secção, moderada por José Pinto, contou com a participação de Nuno Augusto, Mário Nogueira, Luís Silveira e Maria do Carmo Tavares. A saúde, a educação, as políticas sociais e o combate à pobreza e à exclusão foram os principais temas analisados e debatidos. As conclusões foram particularmente preocupantes, uma vez que nestas áreas houve um retrocesso significativo e alarmante: as desigualdades perante o direito do acesso à saúde e ao sistema de ensino, a falta de protecção das pessoas mais fragilizadas e desfavorecidas, puseram em causa conquistas que pareciam inquestionáveis e agravaram as situações de exclusão.

Foram ainda transversalmente reconhecidas a necessidade e as vantagens de realizar iniciativas deste género, a atribuição da maior parte da responsabilidade das dificuldades que se fazem sentir no país em geral e na região em particular à incompetência ou até acção deliberada de políticas desatentas, erradas e casuísticas, subjugadas a interesses que não são palpáveis, seguidas nos últimos anos, bem como as potencialidades e a viabilidade do interior, como região e modelo de desenvolvimento.

MONTIS – Associação para a Gestão e Conservação da Natureza

MONTIS

A Montis é uma nova associação de conservação da natureza que brevemente dará início ao seu processo de registo, logo que passe dos atuais 95 para os necessários 100 sócios. Informação sobre a associação pode ser obtida aqui: http://montisacn.blogspot.pt.

Lançámos recentemente uma campanha de crowdfunding (subscrição pública) para a compra de 5,5 hectares de carvalhal em regeneração. A campanha está sedeada na plataforma PPL e pode ser vista aqui: http://ppl.com.pt/pt/prj/sermos-donos-disto-tudo.
Nesse contexto vimos pedir a colaboração da vossa organização na divulgação da campanha e seus objectivos, pelos vossos associados.

Sabemos que a primeira beneficiária da campanha é a conservação da natureza e em segundo lugar a Montis.

Estamos também convencidos de que é todo o movimento ambientalista, em sentido lato, que pode beneficiar do êxito da campanha, ao demonstrar-se que uma pequena associação pode comprar terrenos apelando a pequenas contribuições das pessoas comuns, não dependendo de recursos externos ao país, ou de projetos que exigem estruturas técnicas complexas, para levar a cabo projetos concretos de conservação. Quebrar a desconfiança no êxito de projetos deste tipo parece-nos um enorme passo, para nós, Montis, mas também para todas as organizações interessadas nas questões ambientais.

Quando a lontra sobe a serra

Um corpo alongado, sinuoso e ligeiramente achatado, as patas curtas com cinco dedos e membranas interdigitais, pêlo impermeável e uma cauda longa que serve de propulsor dentro de água…Estas são algumas das características da lontra (Lutra lutra Linnaeus, 1758), que lhe configuram soberania nos ambientes aquáticos portugueses, particularidades que desde o início me fascinaram.

Dependente da água doce, esta espécie adaptou-se a diferentes zonas húmidas, ocorrendo de forma generalizada por todo o território continental. Contudo, foi na Serra da Estrela – onde a altitude, a natureza granítica e a precipitação são os grandes modeladores da estrutura da região – que tive a oportunidade de realizar um estudo sobre a ecologia da lontra. Observações ocasionais, espécimes atropelados ou baleados e a elevada variedade de zonas húmidas indicavam a sua presença na serra mais elevada de Portugal continental. No entanto, à data, muito pouco se sabia sobre o seu regime alimentar ou utilização em altitudes mais elevadas.

Para perceber qual a distribuição da lontra no Parque Natural da Serra da Estrela, percorri toda a área protegida em busca de indícios de presença da espécie e verifiquei que existia uma estreita relação entre a ocorrência deste carnívoro e a presença de cursos de água ou lagoas com carácter permanente. Grosso modo, a área onde a lontra pode ocorrer varia consoante a altitude. Se por um lado, quanto maior a altitude menor é a área de habitat preferencial, por outro, é no sopé da montanha que se faz sentir uma maior perturbação, com a proximidade às povoações (habitualmente apontado como um aspecto negativo para esta espécie).

Apesar desta diversidade de condições ambientais, podem ser encontrados vestígios de lontra por toda a área do parque, destacando-se a particularidade de a lontra também ocorrer a altitudes superiores aos 1500 metros, onde é menor a disponibilidade de coberto vegetal com condições de refúgio, bem como a abundância de alimento.

Nestas regiões de altitudes mais elevadas, as populações de lontra evidenciaram uma grande adaptação às condições do meio. Assim, verificou-se que a lontra faz uso de recursos tróficos alternativos, onde os anfíbios representam cerca de 83,5% e os peixes (normalmente a sua presa principal) constituem apenas 6,3 % do total de presas consumidas.

Por outro lado, o padrão de marcação do território pela lontra (i.e. marcação odorífera de locais específicos, muitas vezes associada à deposição de fezes), que está directamente relacionado com a importância dos habitats presentes nestas áreas, também é diferente em altitudes superiores e inferiores aos 1500 m. As áreas de maior altitude apresentam quase sempre valores mais elevados de intensidade de marcação, o que poderá estar relacionado com a defesa de recursos, mais escassos nessa área. No entanto, uma inversão deste padrão foi registada na Primavera, época de reprodução da lontra, onde este predador encontra melhores condições a altitudes inferiores, aumentando assim a marcação dos habitats. Estes resultados sugerem uma movimentação de indivíduos entre o Planalto Superior e as áreas de menor altitude.

A ocorrência da espécie por toda a área e durante todo o ano – mesmo nas zonas com condições menos atractivas para a espécie reflectem o potencial hidrológico existente no PNSE, que incluem tanto os leitos dos rios como as suas margens, e podendo variar desde as cabeceiras e troços fluviais relevantes, até aos charcos e albufeiras de corrente lenta.

Passados mais de 15 anos desde a realização deste trabalho, importa perceber o estado actual das populações de lontra no PNSE, tendo presente que, mesmo os resultados então obtidos permitiram apenas conhecer a distribuição generalizada da espécie na área do Parque Natural que, por si só, não é sinónimo de abundância ou estabilidade da espécie. Desconhecem-se completamente outros aspectos que permitam aferir o seu estado de conservação, como são exemplo o tamanho e tendência da população, a qualidade do habitat ou o impacte das pressões que afectam a espécie.

Apesar da relativa tolerância e oportunismo presentes nos hábitos da lontra, a preservação das zonas húmidas revela-se crucial para manter a espécie num estado de conservação favorável.

Dadas as potencialidades hídricas existentes na Serra da Estrela, também o interesse do Homem sobre as zonas húmidas é indiscutível, e a intensidade das actividades que nelas desenvolve são de relevância significativa para a conservação da lontra e de muitas outras espécies de hábitos aquáticos. A destruição do coberto vegetal ripícola, a degradação da qualidade da água, a diminuição de caudal ou de recursos alimentares e a perturbação humana são alguns exemplos da alteração das características naturais do habitat de que a espécie depende.

O valor ambiental das zonas húmidas não se limita ao seu interesse para a conservação de espécies e habitats, representa também uma garantia da qualidade da água e estabilização do leito e margens, suporte de importância vital para o Homem. Permite tanto um usufruto social (actividade balnear, desportos náuticos, etc.) como a exploração económica dos recursos (comercialização da água potável, desportos de inverno, pesca, extracção inertes, rega, abeberamento do gado, exploração da vegetação ribeirinha, potencial hidroeléctrico, etc.).

Ainda que sejam um elemento imprescindível numa estratégia de conservação da natureza, a protecção nacional e internacional conferida à Serra da Estrela, bem como à lontra e a outros valores naturais aí existentes, não são por si só suficientes. É assim, uma necessidade e um desafio garantir uma utilização sustentável dos usos múltiplos das massas de água, maximizando a rentabilidade mas salvaguardando os ecossistemas e a diversidade biológica da Serra da Estrela.

Mónica Sousa (Bióloga)

Fotografia de Fernando Romão