Lontra

Quando a lontra sobe a serra

Um corpo alongado, sinuoso e ligeiramente achatado, as patas curtas com cinco dedos e membranas interdigitais, pêlo impermeável e uma cauda longa que serve de propulsor dentro de água…Estas são algumas das características da lontra (Lutra lutra Linnaeus, 1758), que lhe configuram soberania nos ambientes aquáticos portugueses, particularidades que desde o início me fascinaram.

Dependente da água doce, esta espécie adaptou-se a diferentes zonas húmidas, ocorrendo de forma generalizada por todo o território continental. Contudo, foi na Serra da Estrela – onde a altitude, a natureza granítica e a precipitação são os grandes modeladores da estrutura da região – que tive a oportunidade de realizar um estudo sobre a ecologia da lontra. Observações ocasionais, espécimes atropelados ou baleados e a elevada variedade de zonas húmidas indicavam a sua presença na serra mais elevada de Portugal continental. No entanto, à data, muito pouco se sabia sobre o seu regime alimentar ou utilização em altitudes mais elevadas.

Para perceber qual a distribuição da lontra no Parque Natural da Serra da Estrela, percorri toda a área protegida em busca de indícios de presença da espécie e verifiquei que existia uma estreita relação entre a ocorrência deste carnívoro e a presença de cursos de água ou lagoas com carácter permanente. Grosso modo, a área onde a lontra pode ocorrer varia consoante a altitude. Se por um lado, quanto maior a altitude menor é a área de habitat preferencial, por outro, é no sopé da montanha que se faz sentir uma maior perturbação, com a proximidade às povoações (habitualmente apontado como um aspecto negativo para esta espécie).

Apesar desta diversidade de condições ambientais, podem ser encontrados vestígios de lontra por toda a área do parque, destacando-se a particularidade de a lontra também ocorrer a altitudes superiores aos 1500 metros, onde é menor a disponibilidade de coberto vegetal com condições de refúgio, bem como a abundância de alimento.

Nestas regiões de altitudes mais elevadas, as populações de lontra evidenciaram uma grande adaptação às condições do meio. Assim, verificou-se que a lontra faz uso de recursos tróficos alternativos, onde os anfíbios representam cerca de 83,5% e os peixes (normalmente a sua presa principal) constituem apenas 6,3 % do total de presas consumidas.

Por outro lado, o padrão de marcação do território pela lontra (i.e. marcação odorífera de locais específicos, muitas vezes associada à deposição de fezes), que está directamente relacionado com a importância dos habitats presentes nestas áreas, também é diferente em altitudes superiores e inferiores aos 1500 m. As áreas de maior altitude apresentam quase sempre valores mais elevados de intensidade de marcação, o que poderá estar relacionado com a defesa de recursos, mais escassos nessa área. No entanto, uma inversão deste padrão foi registada na Primavera, época de reprodução da lontra, onde este predador encontra melhores condições a altitudes inferiores, aumentando assim a marcação dos habitats. Estes resultados sugerem uma movimentação de indivíduos entre o Planalto Superior e as áreas de menor altitude.

A ocorrência da espécie por toda a área e durante todo o ano – mesmo nas zonas com condições menos atractivas para a espécie reflectem o potencial hidrológico existente no PNSE, que incluem tanto os leitos dos rios como as suas margens, e podendo variar desde as cabeceiras e troços fluviais relevantes, até aos charcos e albufeiras de corrente lenta.

Passados mais de 15 anos desde a realização deste trabalho, importa perceber o estado actual das populações de lontra no PNSE, tendo presente que, mesmo os resultados então obtidos permitiram apenas conhecer a distribuição generalizada da espécie na área do Parque Natural que, por si só, não é sinónimo de abundância ou estabilidade da espécie. Desconhecem-se completamente outros aspectos que permitam aferir o seu estado de conservação, como são exemplo o tamanho e tendência da população, a qualidade do habitat ou o impacte das pressões que afectam a espécie.

Apesar da relativa tolerância e oportunismo presentes nos hábitos da lontra, a preservação das zonas húmidas revela-se crucial para manter a espécie num estado de conservação favorável.

Dadas as potencialidades hídricas existentes na Serra da Estrela, também o interesse do Homem sobre as zonas húmidas é indiscutível, e a intensidade das actividades que nelas desenvolve são de relevância significativa para a conservação da lontra e de muitas outras espécies de hábitos aquáticos. A destruição do coberto vegetal ripícola, a degradação da qualidade da água, a diminuição de caudal ou de recursos alimentares e a perturbação humana são alguns exemplos da alteração das características naturais do habitat de que a espécie depende.

O valor ambiental das zonas húmidas não se limita ao seu interesse para a conservação de espécies e habitats, representa também uma garantia da qualidade da água e estabilização do leito e margens, suporte de importância vital para o Homem. Permite tanto um usufruto social (actividade balnear, desportos náuticos, etc.) como a exploração económica dos recursos (comercialização da água potável, desportos de inverno, pesca, extracção inertes, rega, abeberamento do gado, exploração da vegetação ribeirinha, potencial hidroeléctrico, etc.).

Ainda que sejam um elemento imprescindível numa estratégia de conservação da natureza, a protecção nacional e internacional conferida à Serra da Estrela, bem como à lontra e a outros valores naturais aí existentes, não são por si só suficientes. É assim, uma necessidade e um desafio garantir uma utilização sustentável dos usos múltiplos das massas de água, maximizando a rentabilidade mas salvaguardando os ecossistemas e a diversidade biológica da Serra da Estrela.

Mónica Sousa (Bióloga)

Fotografia de Fernando Romão