O Clima

Glaciar

Até hà poucos anos atrás, a única forma fiável de avaliar as condições climáticas do passado, era pela interpretação de vestígios na paisagem, originados em determinadas condições ambientais. Podia ser em formas de relevo, no polimento ou desgaste de determinadas rochas ou até no tamanho dos grãos na matriz arenosa ou argilosa dos materiais que preenchem, ou não, as pequenas concavidades das encostas. Era possível determinar, a partir destas evidências, se uma região teria estado sob influência de um clima tropical ou árctico e se esteve coberto pelo mar ou por um, ou mais, glaciares.

Candeeira

Os avanços tecnológicos das últimas duas décadas do século passado, permitiram explorar de forma mais aprofundada duas técnicas que tanto uma como a outra permitem reconstruir, e com grande pormenor, as condições ambientais no passado. Os dois métodos são muito diferentes em quase tudo, mas resultaram em uma melhoria muito significativa do conhecimento do passado recente do nosso planeta.

Quando o clima arrefece, há manchas de neve que não chegam a fundir-se por completo durante o Verão e Outono. Durante o Inverno seguinte, a acumulação de neve pode ultrapassar a quantidade de neve que derreteu e evaporou no ano anterior. Nestas condições, haverá tendência para um aumentar da extensão das manchas de neve e do grau de compactação, devido ao acumular de neve de ano para ano, de modo que ao fim de poucos anos, onde havia manchas dispersas de neve, poderá formar-se uma grande mancha de neve, em que os cristais se fundem numa massa de gelo compacta a tal ponto que na sua base o gelo adquire propriedades físicas de uma ligeira plasticidade. O simples peso da neve acumulada aumenta a pressão exercida sobre o leito a tal ponto que o gelo se funde na superfície de contacto entre o gelo e o leito rochoso.

Neste processo, que resume a forma&ccedil;&atilde;o de um glaciar, ocorre outro processo durante a compacta&ccedil;&atilde;o da neve, que &eacute; a incorpora&ccedil;&atilde;o de pequenas quantidades de ar atmosf&eacute;rico no gelo. Estas bolhas de ar s&atilde;o microsc&oacute;picas, mas guardam o ar de forma absolutamente herm&eacute;tica.<br />Pela observa&ccedil;&atilde;o cuidada do gelo glaciar pode-se identificar, camada sobre camada, as deposi&ccedil;&otilde;es anuais de gelo, devido &agrave; altern&acirc;ncia do Inverno, com acumula&ccedil;&atilde;o, e do Ver&atilde;o, com fus&atilde;o e regelamento superficial. &Eacute; poss&iacute;vel identificar os estratos anuais durante dezenas e at&eacute; centenas de milhares de anos. Em cada camada anual ficar&aacute; guardado o ar atmosf&eacute;rico que existia no nosso planeta nesse Inverno em que se acumulou a respectiva camada de neve.</p>
Grafico
(Agência Norteamericana de Observaçõo e Previsão Meteorológica)

Esta técnica de investigação, que analisa o ar, e por consequente o ambiente, do passado, designa-se por criocronologia. Deriva de dois l&eacute;xicos gregos, &lsquo;cryos&rsquo; (gelo) e &lsquo;cronos&rsquo; (tempo). Significa ent&atilde;o, o estudo do tempo passado atrav&eacute;s do estudo do gelo.

Têm-se feito expedições científicas às calotes glaciárias da Groenlândia e da Antárctida com a finalidade de extrair dessas massas de gelo colunas transversais &agrave;s camadas anuais. Usa-se uma broca circular que extrai um cilindro de gelo de cerca de vinte cent&iacute;metros de di&acirc;metro. A Groenl&acirc;ndia e a Ant&aacute;rctida s&atilde;o os &uacute;nicos s&iacute;tios onde o gelo n&atilde;o desapareceu durante per&iacute;odos quentes no passado. Na Groenl&acirc;ndia esse registo cont&iacute;nuo chega at&eacute; perto de 150 mil anos. A&iacute; a broca &lsquo;bateu no fundo&rsquo;, literalmente, ao fim de pouco mais de 3km; na Ant&aacute;rctida o registo chega at&eacute; quase meio milh&atilde;o de anos, ao longo de pouco mais de 4km. Aqui n&atilde;o se chegou ao leito rochoso por que existe um enorme lago por baixo do gelo ant&aacute;rctido. Se o gelo fosse furado at&eacute; esse lago, a enorme press&atilde;o exercida pelo gelo faria a &aacute;gua sair num grande jorro e o seu esvaziamento teria consequ&ecirc;ncias imprevis&iacute;veis para a din&acirc;mica glaciar do continente gelado.

Consegue-se extra&iacute;r e deduzir uma grande quantidade de informação a partir da análise da composição do ar atmosf&eacute;rico e do pr&oacute;prio gelo, entre elas &eacute; poss&iacute;vel avaliar a temperatura ambiental com a exactid&atilde;o da d&eacute;cima do grau. Baseado em v&aacute;rias pesquisas da Groenl&acirc;ndia e da Ant&aacute;rctida, sabe-se quais as oscila&ccedil;&otilde;es da temperatura ao longo dos &uacute;ltimos mais de 400 000 anos.

Após a fus&atilde;o do gelo de determinada região, muito raramente a paisagem passa a uma verdejante floresta ou um jardim florido. O gelo tem uma capacidade erosiva enorme; mesmo glaciares pequenos s&atilde;o agentes erosivos potentes, n&atilde;o-selectivos. Isto significa que o glaciar leva, literalmente, tudo pela frente. Por baixo do gelo apenas existe rocha limpa e polida. &Agrave; sua frente, na posi&ccedil;&atilde;o do seu avan&ccedil;o m&aacute;ximo, deixa um arco de detritos como que fosse uma pegada com a forma exactamente inversa da l&iacute;ngua de gelo. Como o gelo &eacute; um agente erosivo &lsquo;n&atilde;o-selectivo&rsquo; este arco de detritos cont&eacute;m material de todos os tamanhos, desde rochas com dezenas de metros, brita, areia at&eacute; as mais finas argilas. Estes materiais podem, posteriormente, ser deslocados, agora sim, de forma selectiva, por outros agentes de eros&atilde;o, ao longo dos tempos: a chuva tende a levar os materiais mais finos, a gravidade os maiores; um novo glaciar leva tudo, menos o que fica &lsquo;guardado&rsquo; em pequenas concavidades na rocha&hellip;

A fase de recess&atilde;o de um glaciar &eacute;, no fundo, um per&iacute;odo em que a quantidade de neve recebida na &aacute;rea superior do glaciar seja inferior &agrave; quantidade de gelo perdida por evapora&ccedil;&atilde;o e derretimento/fus&atilde;o, na parte inferior do mesmo.

Quando um glaciar entra em decl&iacute;nio, dependendo do seu tamanho, pode ser um evento quase calmo de derretimento de uma l&iacute;ngua de gelo de umas centenas de metros, como pode ser um acontecimento que acontece ao longo de centenas de quil&oacute;metros e dezenas ou mesmo centenas de anos. Pode ser um acontecimento por vezes ca&oacute;tico, por vezes mesmo dram&aacute;tico, com implos&otilde;es de t&uacute;neis subglaci&aacute;rios, desabamentos de encostas sobre o desaparecido gelo e esvaziamento de lagos sobre o gelo ou que este segurava como uma barragem natural.

Logo que o gelo desapare&ccedil;a de uma superf&iacute;cie rochosa, a humidade atmosf&eacute;rica e as altera&ccedil;&otilde;es de temperatura iniciam o processo de &lsquo;altera&ccedil;&atilde;o&rsquo; da rocha: &eacute; um processo qu&iacute;mico que resulta numa altera&ccedil;&atilde;o das propriedades mec&acirc;nicas das rochas e tende a auto-intesificar-se com o tempo. Juntamente com poeiras minerais e org&acirc;nicas (ou seja com origem em rochas ou em h&uacute;mus/terra) estes detritos v&atilde;o ser o substrato para a nova gera&ccedil;&atilde;o de seres vivos. Ao fim de poucos anos j&aacute; encontramos pequenos tapetes de musgos e pequenos arbustos. S&atilde;o as chamadas esp&eacute;cies pioneiras &ndash; as primeiras esp&eacute;cies vegetais que aparecem em bolsas de terra, que &agrave;s vezes n&atilde;o chegam a ter mais do que meio metro e alguns cent&iacute;metros de profundidade, rodeados pela rocha limpa que saiu debaixo do glaciar.<br />Sendo o gelo um s&oacute;lido, com a capacidade de se moldar ao substrato rochoso, tem tamb&eacute;m a capacidade de descer o vale e de subir e abrir caminho por irregularidades no seu trajecto. Depois de recuar, vale acima, o gelo deixar&aacute; para tr&aacute;s, frequentemente superf&iacute;cies cuja inclina&ccedil;&atilde;o n&atilde;o acompanha o declive &lsquo;normal&rsquo; dos vales fluviais: h&aacute; sec&ccedil;&otilde;es dos vales glaci&aacute;rios que sobem, em vez de descerem. Desaparecido o gelo, a &aacute;gua vinda do glaciar em fus&atilde;o e da chuva, rapidamente encher&aacute; a depress&atilde;o fechada com um lago. Esta vai gradualmente ser preenchida com areias provindas do escoamento do glaciar. &Agrave; medida que o lago se for enchendo, o glaciar se for afastando progressivamente e as encostas em seu redor v&atilde;o sendo cada vez mais colonizadas por vegeta&ccedil;&atilde;o, os detritos que enchem o lago v&atilde;o alterando as suas caracter&iacute;sticas. Ser&atilde;o t&iacute;picas de ambientes cada vez mais florestais e menos parecidos com o &lsquo;deserto&rsquo; caracter&iacute;stico da proximidade imediata de um glaciar.

Normalmente estes dep&oacute;sitos v&atilde;o-se depositar ordenadamente, com os mais antigos por baixo e os mais recentes em cima. Juntamente com os detritos levados pelas &aacute;guas, as plantas em redor do lago produzem as suas sementes e o p&oacute;len, em quantidades que s&atilde;o conhecidas de estudos de campo feitos nos s&iacute;tios onde essas plantas vivem. Naturalmente v&atilde;o sendo incorporados nos dep&oacute;sitos do fundo do lago, que assim v&atilde;o ter o testemunho da composi&ccedil;&atilde;o da vegeta&ccedil;&atilde;o dentro e &agrave; volta do lago, desde a cria&ccedil;&atilde;o.<br />Por raz&otilde;es naturais, um lago de &aacute;guas l&iacute;mpidas e profundas tem uma flora de plantas aqu&aacute;ticas completamente diferente de um lago de fundo lodoso, rodeado de plantas e &aacute;rvores de grandes e sombrias copas ou de uma turfeira que seca &agrave; superf&iacute;cie todos os Ver&otilde;es, rodeada de arbustos espinhosos.

Como se sabe a que condi&ccedil;&otilde;es ambientais corresponde cada planta, ou melhor, cada conjunto de plantas e se sabe igualmente a quantidade de p&oacute;len produzido por cada esp&eacute;cie &ndash; &eacute; apenas a quest&atilde;o de as visitar na natureza &ndash; pela an&aacute;lise do conjunto de p&oacute;lenes em determinado dep&oacute;sito consegue-se inferir a vegeta&ccedil;&atilde;o existente dentro e &agrave; volta do lago.<br />Tal como no caso dos trabalhos levados a cabo no gelo da Groenl&acirc;ndia e na Ant&aacute;rctida, in&uacute;meras turfeiras t&ecirc;m sido &lsquo;furadas&rsquo;, para delas retirar cilindros, n&atilde;o de gelo mas de camadas de areia, argila, turfa e outros materiais de cores variadas entre o quase branco ao negro, passando pelo castanho esverdeado e avermelhado.

Este material n&atilde;o permite distinguir camadas anuais, pelo que a data&ccedil;&atilde;o desse material ter&aacute; de se apoiar em m&eacute;todos de data&ccedil;&atilde;o como por exemplo o do &lsquo;carbono-14&rsquo;. Sem entrar em grandes pormenores, que saiem do &acirc;mbito deste artigo, podemos explicar que se baseia na decomposi&ccedil;&atilde;o de um tipo radioactivo de carbono que existe naturalmente em todo o tecido vivo, absorvido enquanto em vida; com a morte do organismo, deixa de absorver carbono e a rela&ccedil;&atilde;o entre o carbono radioactivo e o est&aacute;vel altera-se com a idade, &agrave; medida que o r&aacute;dio-carbono se decomp&otilde;e gradualmente em carbono est&aacute;vel. Fazem-se amostras em v&aacute;rios n&iacute;veis do n&uacute;cleo e em cada um avalia-se a idade do material org&acirc;nico.<br />Em algumas bacias mais fundas a sedimenta&ccedil;&atilde;o de material pode manter-se activa durante milhares de anos. Se n&atilde;o for interrompida, os sedimentos v&atilde;o eventualmente preencher por completo a bacia. Deixa de existir um lago e passa a ser um pa&uacute;l e finalmente uma turfeira. Do n&uacute;cleo de sedimentos que se retira do fundo do lago, ou se for caso disso, da turfeira, retiram-se cuidadosamente amostras em que se faz uma contagem exaustiva dos p&oacute;lenes microsc&oacute;picos em cada camada.

Os p&oacute;lenes atribu&iacute;dos a cada esp&eacute;cie s&atilde;o ponderados pela produ&ccedil;&atilde;o de p&oacute;len da mesma, que &eacute; conhecida de estudos j&aacute; feitos a essas plantas. H&aacute; grandes diferen&ccedil;as na produ&ccedil;&atilde;o de p&oacute;len de g&eacute;nero para g&eacute;nero. Assim encontrar, numa l&acirc;mina de dep&oacute;sito 6000 p&oacute;lenes de uma esp&eacute;cie e 100 de outra, n&atilde;o significa necessariamente que existia 60 vezes mais indiv&iacute;duos duma esp&eacute;cie do que da outra. Os pinheiros s&atilde;o esp&eacute;cies com produ&ccedil;&atilde;o muito grande de p&oacute;len, ao contr&aacute;rio, p.ex., dos carvalhos.

Feita essa pondera&ccedil;&atilde;o, a contagem de p&oacute;len, revela a composi&ccedil;&atilde;o da comunidade vegetal, que por sua vez &eacute; uma indica&ccedil;&atilde;o da actividade humana e do ambiente clim&aacute;tico. Com o aumento da quantidade de amostras e da quantidade de locais de onde s&atilde;o retirados n&uacute;cleos de lagos/turfeiras, melhor &eacute; a imagem que se consegue fazer da evolu&ccedil;&atilde;o do clima em determinado local ou regi&atilde;o.<br />A este m&eacute;todo cient&iacute;fico d&aacute;-se o nome palinologia. Tamb&eacute;m &eacute; derivado de l&eacute;xicos gregos. &lsquo;paluno&rsquo; significa borrifar, espalhar pelo ar e &lsquo;pale&rsquo; que significa p&oacute;. Refere-se ao p&oacute;len, que &eacute; o &lsquo;p&oacute;&rsquo; espalhado pelas plantas. Como os p&oacute;lenes n&atilde;o apodrecem facilmente, conseguimos encontr&aacute;-los mesmo ap&oacute;s muitos anos.

Se juntarmos as duas t&eacute;cnicas que descrevemos, &eacute; obvio que temos as ferramentas para descrever o passado das condi&ccedil;&otilde;es ambientais, os ciclos de clima quente e frio, e a evolu&ccedil;&atilde;o das comunidades vegetais.

A &uacute;ltima &eacute;poca glaci&aacute;ria teve tr&ecirc;s fases de clima frio, que deu origem a tr&ecirc;s fases de forma&ccedil;&atilde;o e avan&ccedil;o de glaciares. &Eacute; um facto que &eacute; consensual para praticamente todas as regi&otilde;es do globo. &Eacute; n&iacute;tido nos dados extra&iacute;dos dos n&uacute;cleos de gelo, tanto da Groenl&acirc;ndia como da Ant&aacute;rctida. Come&ccedil;ou h&aacute; cerca de 90 mil anos e acabou h&aacute; cerca de 15 mil anos. As varia&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas entre regi&otilde;es contribui para que a severidade das condições glaci&aacute;rias n&atilde;o seja igual em todo o globo. Mesmo em regi&otilde;es pr&oacute;ximas, h&aacute; varia&ccedil;&otilde;es. Assim, nos Piren&eacute;us, a segunda fase de glacia&ccedil;&atilde;o ter&aacute; sido a mais intensa, enquanto nos Alpes a &uacute;ltima fase foi mais intensa e culminou h&aacute; cerca de 25 000 anos; na Escandin&aacute;via as &uacute;ltimas duas ter&atilde;o sido semelhantes com culmina&ccedil;&atilde;o h&aacute; cerca de 18 000 anos. Em Portugal ter&aacute; havido oscila&ccedil;&otilde;es em fun&ccedil;&atilde;o da exposi&ccedil;&atilde;o ao longo das v&aacute;rias fases de frio da &uacute;ltima &eacute;poca glaci&aacute;ria, n&atilde;o se podendo afirmar que uma ou outra fase foi a de maior intensidade.

Dado que j&aacute; foram feitos v&aacute;rios estudos sobre a evolu&ccedil;&atilde;o da vegeta&ccedil;&atilde;o no noroeste da Pen&iacute;nsula Ib&eacute;rica, j&aacute; h&aacute; uma ideia bastante exacta da evolu&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es ambientais desta regi&atilde;o no per&iacute;odo abrangido pelos dep&oacute;sitos das turfeiras.

Uma das turfeiras que permitiu fazer uma sondagem mais funda, com pouco mais de 16 metros, foi precisamente na Serra da Estrela, mais concretamente no Vale da Candeeira, pr&oacute;ximo da sua abertura para o Vale do Z&ecirc;zere. Esta sondagem abrange todo o per&iacute;odo desde que os glaciares da &uacute;ltima &eacute;poca do gelo recuaram at&eacute; as cabeceiras dos vales superiores da Serra. Isto ter&aacute; acontecido h&aacute; cerca de 16 000 anos. Devido &agrave; precis&atilde;o dos dados extra&iacute;dos do gelo da Groenl&acirc;ndia, pode-se correlacionar estes dados e as oscila&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas a&iacute; verificadas com as varia&ccedil;&otilde;es ambientais e clim&aacute;ticas conforme deduzidas da vegeta&ccedil;&atilde;o na Serra da Estrela.

Alguns m&eacute;todos de an&aacute;lise cient&iacute;fica tendem a &lsquo;ver&rsquo; com mais pormenor o presente e o passado recente &ndash; &agrave; medida que recuamos para o passado mais afastado, o &lsquo;nevoeiro do tempo&rsquo; tende a deixar os pormenores um tanto ou quanto indefinidos. Aceita-se, por norma, que os acontecimentos de h&aacute; 10 ou 20 mil anos tenham uma &lsquo;margem de erro&rsquo; de dezenas ou de centenas de anos. Com o m&eacute;todo da criocronologia, as camadas anuais d&atilde;o aos cientistas a mesma precis&atilde;o em acontecimentos com 100 anos como os que t&ecirc;m 50 000 anos.

A prolifera&ccedil;&atilde;o de estudos de palinologia contribuiu para uma melhor defini&ccedil;&atilde;o da evolu&ccedil;&atilde;o das comunidades vegetais depois da &uacute;ltima &eacute;poca do gelo. &Eacute; poss&iacute;vel identificar padr&otilde;es espaciais na deglacia&ccedil;&atilde;o, rotas de migra&ccedil;&atilde;o de algumas esp&eacute;cies (como a aveleira ou a faia) e o aparecimento e intensifica&ccedil;&atilde;o da ac&ccedil;&atilde;o humana.

O cruzamento destas duas vias de investiga&ccedil;&atilde;o permite atribuir datas muito exactas aos acontecimentos, de modo que se consegue saber com precis&atilde;o a velocidade com que a natureza reage a determinadas alterações.

Na Serra da Estrela, as investiga&ccedil;&otilde;es levaram a um conhecimento aprofundado da cronologia do per&iacute;odo do final da &uacute;ltima &eacute;poca glaci&aacute;ria, e mostram a exist&ecirc;ncia de comunidades vegetais muito diversificadas ao longo dos &uacute;ltimos 16 mil anos. Há cerca de 9 mil anos, as condi&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas estabilizaram. Houve oscila&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas nesse per&iacute;odo, mas pouco significativas: os &uacute;ltimos dez mil anos marcam o per&iacute;odo duradoiro termicamente mais est&aacute;vel dos &uacute;ltimos 200 000 anos! Impõe-se assim a questão se a estabilidade clim&aacute;tica, que tanto se procura nos dias que correm, &eacute; o normal ou se ser&aacute; uma excepção?

Siggurd Kalmar Matos
Licenciado em geografia